Dias de Abandono

Elena Ferrante

pobre coitada
“…repetia a mim mesma o que eu ouvia, eram palavras entre a aflição contida e a ameaça, quando você não sabe segurar um homem perde tudo, relatos femininos de fins de caso, o que acontece quando, plena de amor, você é não mais amada, é deixada sem nada. A mulher perdeu tudo, até o nome (talvez se chamasse Emília), se tornou para todos "a pobre coitada”, começamos a falar dela chamando-a desse jeito. (…) Havia perdido a imponência dos peitos, do quadril, das coxas, perdeu seu rosto largo e juvenil, o sorriso claro. Tornou-se feita de pele transparente sobre os ossos, os olhos afundados em poços violetas, as mãos de úmida teia de aranha.“


dúvida
"Pensei que assim como eu lhe mostrava calculadamente todas as minhas virtudes de mulher apaixonada e por isso pronta para lhe dar apoio durante aquela crise, também ele, calculadamente, estava tentando me provocar desgosto, para me forçar a lhe dizer: vai embora, tenho nojo de você, não o suporto mais.”


regra 1
“Se ele ama outra mulher, nada que você faça vai adiantar, vai tudo desabar sem deixar rastros. Comprimir a dor, deixar a possibilidade do gesto, da voz estridente. Aceite que ele mudou os pensamentos, trocou de quarto, e foi correndo se fechar em outra carne. Não faça como a pobre coitada, não se desfaz em lágrimas. Evite se parecer com as mulheres despedaçadas de um famoso livro de sua adolescência.”


regra 2
“Outra regra era não me tornar uma pessoa desprezível. Mas eu não conseguia me conter, sentia imediatamente um tumulto no sangue que logo me ensurdecia, queimava-me os olhos. A razoabilidade dos olhos e o meu próprio desejo de calma me deixavam nervosa. A respiração ficava acumulada na garganta, preparando-se para vibrar em palavras raivosas. Eu sentia a necessidade de brigar e de fato discuti primeiro com nossos amigos do sexo masculino, depois com suas esposas ou namoradas, e no final passei a brigar com qualquer um que tentasse, homem ou mulher, me ajudar a aceitar o que estava acontecendo na minha vida.”


fica
“Não sucumbir, eu dizia. Combater. Temia, sobretudo, a minha crescente incapacidade de me deter num pensamento, de me concentrar numa ação necessária. Sentia-me assustada com torções bruscas, não controladas. Mario, escrevia para dar coragem, não levou consigo o mundo, levou consigo somente a si mesmo. E você não é uma mulher de trinta anos atrás. Você é de hoje, segure-se no hoje, não regrida, não se perca, se segure. Sobretudo não se abandone aos monólogos absortos ou maldizente ou odiosos. Apague as exclamações. Ele foi, você fica.”


não romper
“Organize as defesas, conserve sua inteireza, não se faça quebrar como um objeto de decoração, como um joguete, mulher nenhuma é um joguete. La femme rompue, ah, rompue, rompe o caralho. A minha tarefa, eu pensava, é mostrar que é possível permanecer sã. Demonstrá-lo a mim mesma, a mais ninguém. Se for exposta aos lagartos, combaterei lagartos. Se for exposta às formigas, combaterei formigas. Se for exposta aos ladrões, combaterei ladrões. Se for exposta a mim mesma, combaterei a mim.”


mudança
“Não é fácil passar da tranquila felicidade do passeio sentimental à desordem, à desconexão do mundo.”


animal
“Decidi, chega de dor. Aos lábios da sua felicidade noturna eu deveria colar os da minha retaliação. Eu não era o tipo de mulher que se despedaçava com os golpes do abandono e da ausência, até enlouquecer, até morrer disso. Só havia perdido algumas lascas, de resto estava bem. Eu era íntegra, e íntegra continuaria a ser. A quem me faz mal, devolvo na mesma moeda. Sou o oito de espadas, sou a vespa que pica, sou a cobra escura. Sou o animal invulnerável que atravessa o fogo sem se queimar.”


espera
“Esperava, enquanto cuidava dos filhos de Mario, um tempo que não chegava nunca, o tempo em que eu teria recomeçado a ser como havia sido antes da gravidez, jovem, magra, enérgica, descaradamente convencida de poder fazer de mim sei lá que espécie de pessoa memorável. Não, pensei apertando o pano de chão e levantando-me com dificuldade: o futuro, de certo ponto em diante, é somente a necessidade de viver o passado. Refazer imediatamente os tempos verbais.”


queda
“Algo certamente aconteceu comigo durante a noite. Ou eu tinha chegado, após meses de tensão, à beira de um precipício e agora caía como num sonho, lentamente, mesmo continuando a apertar nas mãos o termômetro, mesmo apoiando a sola das pantufas no chão, mesmo se sentindo firmemente controlada pelo olhar dos meus filhos. Culpa do tormento que me foi dado pelo meu marido. Chega, precisava arrancar a dor da memória, precisava me livrar dos arranhões que destruíam o meu cérebro.”


compacidade
“A compacidade das coisas é, às vezes, confiada a elementos irritantes que parecem perturbar sua coesão.”


um teto todo seu
“Este cômodo é muito amplo, anotava com a minha letra, não consigo me concentrar, não consigo entender profundamente onde estou, o que faço, por quê. A noite é longa, não passa, por isso meu marido me deixou, queria que as noites corressem, antes de envelhecer, de morrer. Preciso, para escrever bem, para ir até o âmago de cada pergunta, de um lugar menor, mais seguro. Apagar o supérfluo. Restringir o campo. Escrever de verdade é falar do fundo do ventre materno. Virar a página, Olga, começar de novo.”


perdida
“Queria a certeza plana dos dias normais, mesmo sabendo bem que no corpo perdurava um movimento frenético e outro, uma rápida aparição, como se tivesse visto no fundo de um buraco um horrível inseto venenoso e cada parte de mim estivesse ainda se retraindo e agitando os braços, as mãos, as pernas. Preciso aprender de novo - disse - o passo tranquilo de quem acha que sabe aonde está indo e por quê.”

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