Embarque

o que vai embora e o que fica.

A estação estava movimentada, as pessoas passavam apressadas, mas ela estava ali, estática. Quando seus olhos encontraram os dele, até a respiração cessou. Ela na plataforma e ele na poltrona do trem, era como se os pensamentos pudessem ser ouvidos através do espesso vidro da janela. Como era possível dizer tanto sem pronunciar uma palavra? Como era possível entender tanta coisa que jamais poderia ser explicada? Como era possível voltar a rotina depois daquela semana? Os segundos passavam rapidamente no relógio que brilhava no alto da coluna de tijolos, o tempo se esgotava e tudo que eles tinham naquele momento eram 65 segundos. O calor do abraço trêmulo do reencontro, que preencheu em milésimos o vazio de meses. As cores vibrantes das paisagens e cidades que conheceram . O sabor doce das sobremesas fora de hora. O sorriso das declarações inusitadas na calçada, enquanto esperavam o farol abrir. O arrepio dos inúmeros olhares, sim, o simples fato de olhar pro lado e vê-lo, ali, com ela, já era de arrepiar. As duas mãos entrelaçadas no bolso do mesmo casaco. A grama gelada, que dava aquela sensação de molhar a roupa, enquanto o sol aquecia os rostos tranquilos dos dois corpos deitados no parque. As risadas das conversas intermináveis. As madrugadas muito bem mal dormidas. O cheiro dele nas roupas dela e vice e versa. As fotos no celular, para lembrá-los de que tudo havia realmente acontecido. A surpresa das coincidências que só fariam sentido para os dois, pura sintonia. O gosto agridoce do último beijo e agora, 5 segundos.

A estação estava movimentada, as pessoas passavam apressadas, mas ela estava ali, estática. CLACK! A porta do último vagão se fechou. Mas o barulho era dos corações se partindo ao meio, ele levava metade e ela ficava com a outra parte.

O trem partiu na mesma velocidade que o vazio voltou.

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