Alguém Com Quem Contar

Caminhava pela avenida mais movimentada da cidade. Queria estar em meio à multidão para tentar se sentir menos sozinha. Ainda não havia chorado. Não digerira a notícia. Pessoas apressadas, provavelmente em horário de almoço, passavam por ela imersas em seus mundos de grande mistério.

Refletiu sobre o mundo interno de cada um. Sobre cada batalha travada tanto naquela manhã, quanto na noite, mês, ano passados. E que luta! Não dava para sequer cogitar o desastre que se passava pela vida de cada um naquele momento. A única coisa que ela lhes desejava era alguém ao lado, para ajudar ou só para estar ao lado mesmo naquela hora difícil. Um amigo que fosse. Seria o bastante. Hoje, ela não tinha.

Lembrou-se das duas, na quadra da escola, na sétima série, quando a amiga resolvera lhe contar a opção sexual, que ela já imaginava, é claro, mas que nunca exigiu que a outra assumisse. Mais uma lembrança lhe veio à mente e as duas estavam numa viagem escolar quando a outra deu um soco no garoto que partira seu coração. A amiga era super protetora.

Bons e velhos tempos.

A amizade beirava uns 30 anos e ela se arrependia. De sua ausência, de sua falta de cuidado e manutenção e, principalmente, de suas poucas revelações. Era esse o momento clichê de arrependimento e pensamento “eu devia ter feito mais”. E, no caso dela, era concreto. Ela devia. Devia ter derrubado barreiras, devia ter demolido o muro que a protegia do mundo, o muro que a fazia tornar-se reclusa e que a impedia de dizer a real importância daquela amizade.

E agora. Ah! Agora era tarde.

As lágrimas já escorriam e o vazio já estava devidamente instalado. Nada mais poderia ser feito. E só o que conseguia pensar era: “Amiga, eu te amava. Eu nunca lhe disse, mas eu amava.” Enquanto caminhava, sentiu falta de terem tido um desses dias de jovens amigas que dizem uma à outra a importância daquela amizade numa noite dormindo uma na casa da outra, mas isso não ocorrera e agora só caminhava chorando. Quase aos prantos.

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