Just In Case

Olhou para o papel em suas mãos e baixou os olhos. Uma música de uma dupla sertaneja, que ela julgava ser bem brega, lhe veio à mente. Até as letras do convite eram douradas, como as da música.

A princípio nada conseguiu fazer. Apenas ficou em silêncio. Imersa em pensamentos vazios. Pensamentos. Que pensamentos? Na verdade não conseguia sequer pensar.

Logo veio a negação, que antes ela sabia que não demoraria a chegar. As lágrimas. Malditas lágrimas. Juntos vieram os gritos e a dor no peito. Pronto. Já estava rasgando o convite em mil pedaços. Assim como fizeram com seu coração. E o pior: Por que convidá-la?

Para mostrar superioridade? Para provar que estava e sentia-se melhor que ela? Para lhe garantir que aquela guerra fora ele quem conquistara? Para que? Isso não era necessário. Ela sempre soube disso, pois quem nunca seguira em frente encontrava-se bem ali, acabada, à sua frente, refletida num espelho.

Até quando? Até quando viveria o sonho ou a ilusão de que ele voltaria?

Foi até a cozinha e olhou pela milionésima vez o último recado por ele deixado: “Volto Logo!” e pensou em quanto tempo havia se passado desde que o “logo” nunca chegara. Começou a tremer e foi até o quarto. Abriu a parte dele do guarda-roupas e refletiu sobre as peças de roupa que ela havia guardado caso ele quisesse voltar. “Caso”. Quantas vezes pensara em se desfazer de tudo, mas por fim sempre pensava: “Vou guardar só por precaução. Caso ele queira voltar.”. Bateu o olho na jaqueta preferida dele, toda suja, pois ela a havia jogado no lixo, mas pegara-a de volta, pois não conseguia fazer com que nada daquilo fosse embora.

Como podia ter sido tão forte para mandá-lo embora e tão fraca por ainda desejá-lo? Ela não conseguia aguentar a dor que agora assolava seu coração partido. Como ele se olhava no espelho e não sentia falta do abraço dela em volta de sua cintura? Como ele não sentia falta de “casa”? Como ele não a amava mais?

E ela sempre pensando nele adentrando pela porta do quarto e vendo seus pertences ainda ali. Ela abria um sorriso e dizia:

Eu só guardei caso, um dia, eventualmente, você quisesse voltar. Caso mudasse de ideia e sentisse falta do que você tinha antes. Caso quisesse voltar para casa por não ter encontrado o que procurava.

Quando percebeu já estava em cima da cadeira com a gravata dele presa à viga do teto, já em volta de seu pescoço, chorando por palavras que preparara, mas que nunca diria. Riu ao lembrar-se do fim do discurso: “por não ter encontrado o que procurava”, pois lhe vinha à mente outra música: “Guess she gave you things, I didn’t give to you”. Conseguia ser teatral e melodramática até perante o fim.

Empurrou a cadeira…

Quanto tempo demorariam para encontrá-la?

Uma louca solitária que não soube seguir em frente.

“Sometimes it lasts in love but sometimes it hurts instead…”

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