Estático

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Ela se foi. A cama ainda estava quente e os lençóis amassados. As meias emboladas se escondiam debaixo da cama. A pasta de dente vazando do tubo sem tampa. Os fios de cabelo no ralo. A calcinha molhada pendurada na torneira. A toalha úmida no chão. A cortina balançava com o vento da fresta da janela. O resto do café grudava no fundo da xícara. A manteiga derretia em cima da mesa cheia de migalhas. O feijão congelava no pote de sorvete. A lista de compras pendia incompleta na porta da geladeira. O sapato novo ainda esperava ser usado. O guarda chuva ainda pingava, quase em uníssono com a pia da cozinha. O peixe laranja se movia lentamente no aquário da mesinha de centro. O porta - retrato metálico lembrava o sorriso da sua mãe. O marcador amassava a página 132 do livro na cabeceira. O chaveiro de pedrinhas coloridas balançava pendurado na porta da frente. O relógio marcava os segundos. Tic. Tac. Tic. Tac.

O telefone tocou…

Mas ela se foi. Foi sem saber. Foi sem avisar ninguém. Nem ela mesma. Nem o motorista, que agora desesperado, chamava o socorro.

Daiane Bugatti

09 Mai 14
Uau... Muito bom! O que é inesperado é assim, né? No dia-a-dia... Ninguém sabe que não haverá o amanhã...

Ex Posta

09 Mai 14
Obrigada Daiane ;) ... Exatamente...Fiquei pensando em tudo que deixamos pra trás quando o inesperado acontece, além da burocracia, herança, saudade e etc.. o que fica do mais simples, sabe? Do mais óbvio, mas que raramente paramos pra reparar.

Daiane Bugatti

13 Mai 14
Realmente... Às vezes, a sensibilidade de perceber essas coisas simples que nos fazem tocar quem está lendo... Porque é simples, e ninguém diz, portanto, não é tão simples assim...rsrsrs Foi meio confuso o que escrevi, maaas...
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