Calabouço

Para que fugir de um se entrarás em outro?

Arrumou a mala pela centésima vez. Perdera as contas de quantas vezes já fizera aquela mesma coisa, mas dessa vez sentia-se diferente. Dessa vez realmente parecia ser a última.

Olhou para o noivo ali deitado. A quantidade de heroína que ele injetara era o bastante para que ela derrubasse o apartamento e ele sequer se mexesse. Esse pessoal gringo tinha uma coisa com aquela droga, que era inexplicável.

Ok. Ela vira e mexe cheirava um pó aqui e ali, mas era para dar um up! Para ficar ligadona e não para cair baqueada. Fazia aquilo em dias pós desfile em que tinha que trabalhar praticamente virada no dia seguinte. A rotina de sua profissão era das mais difíceis depois de bem-sucedida.

Também tivera o problema do irmão, no Brasil, com crack. Lembrava-se bem do sofrimento da mãe, mas ela preferira se abstrair. Fingira que não era com ela. Estava construindo a carreira, não podia voltar, dar passos para trás. Era o sonho de uma vida inteira que estava em jogo. (Às vezes, pensava que preferia que ele devia já ter morrido, assim daria paz a todos.)

Fora tão criticada por isso, principalmente pela irmã mais velha, mas não havia nada que a irmã ou qualquer outra pessoa pudesse fazer ou dizer. Ela escolhera ser feliz. Estava determinada. Escolhera fugir daquele calabouço, daquela prisão que era sua antiga residência e daquelas pessoas que de nada se pareciam com ela.

Fechou o zíper e caminhou porta afora, passou pelo corredor observando os quadros que eles haviam escolhido juntos. Dias felizes aqueles. Risos nas lojas mais caras de Nova York. Fotos com fãs do mercado fashion que a reconheciam também fora das passarelas. Como ela amava aquilo.

Amava?

Não sabia mais dizer se amava mesmo. Com toda a certeza. Na verdade estava farta. Farta daquele vazio que sentia, daquele mundo falso de “faz de conta que somos perfeitos”. O noivado mesmo, acabara há meses, mas ambos assinaram contratos milionários que, caso rescindidos, lhes renderiam multas altíssimas. Tinham que fingir felicidade e paixão duradouras, quase eternas.

Na própria noite anterior fora a um jantar beneficente, de gala. Seu vestido, de um dos maiores estilistas da atualidade, fora o mais comentado. Grande coisa. Houve doações de milhões. Para que? Todos sabiam muito bem que até aquilo era uma farsa. Doavam para aparecer e pagavam salários miseráveis a seus funcionários, afinal, aumentar salário de funcionário não saía na mídia.

Caridade por uma capa de revista de fofoca. Quem nunca? Nojo. Sentia naquele momento nojo de si mesma e de todos com quem convivia.

Olhou a sala com cuidado. Os móveis foram escolhidos com tanta dificuldade e amor e agora estava os deixando. Era isso. Amar um sofá não podia ser coisa de gente normal. Era melhor deixá-lo mesmo. Dinheiro para comprar outro não faltaria.

Abriu a porta da sala e colocou a mala para fora. Era estranho olhar para aquele ambiente pela última vez. Mais estranho ainda era saber que talvez não fosse mesmo a última, afinal se mudaria para, apenas, cinco andares abaixo, pois ainda era prisioneira daquele mundo. E era preciso que achassem que os dois ainda moravam juntos e fingir que tinham a vida que todos gostariam de ter.

Marcos Korody

06 Mai 14
Daiane! Mergulhei na história. Você cria estas do nada, ou se inspira em algum caso conhecido, ou os dois ao mesmo tempo? hehe. Adoro sua capacidade narrativa. Um dia chego lá também. : )

Daiane Bugatti

08 Mai 14
Que bom, Marcos, fico muito feliz mesmo que dê pra acompanhar a história dessa maneira! E a resposta é: as duas ao mesmo tempo...rs Muito obrigada mesmo. :D

Marcos Korody

10 Mai 14
:D

Marcos Korody

10 Mai 14
:D
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