Enemy

O pior por estar ali era o motivo. O motivo que ela mesma criara.

Sua face estava voltada para o teto pouco iluminado e suas mãos se entrelaçavam sobre o peito, numa posição que lembrava a de um defunto dentro do caixão, prestes a ser enterrado. Recordava-se bem da mãe reclamando em sua infância sempre que a via daquela maneira, mas ela sempre se sentira confortável daquele jeito. Que saudades da mãe.

Contudo, para dizer bem a verdade, naquele momento, era como se sentia: morta. Só que em vida. Essa era, na verdade, a pior das mortes, afinal teria de lutar contra aquilo, mas lhe faltavam forças. Se fosse morte mesmo, seria bem mais fácil, pois não haveria luta alguma.

Começou então a refletir sobre os dias e meses que antecediam aquele momento. A dificuldade em se manter sóbria, com sanidade mesmo, era enorme. Não. Não era drogada, nem alcoólatra. Era uma espécia de depressiva explosiva sem causa e sem explicação. (Bom, pelo menos tinha UM lado bom nessa história: não havia nenhuma substância, ilícita ou não, envolvida em seu caso. Seu vício era outro.)

Seus vícios eram outros: mágoa, rancor e a mania de reclamar de que nada nunca estava bem. E agora estava ali. Trancafiada naquele quarto escuro, sem poder sair. Fora a força, ok, contudo ela tinha de concordar que era melhor assim. Ela tinha consciência de que aquilo estava acontecendo porque tinha que acontecer. Porque tinha que ser. Nunca tivera tempo de refletir. Acabava sempre acavalando uma responsabilidade na outra pra não ter tempo mesmo de refletir. Para poder fingir que era normal e que seus surtos eram ao acaso. Mas não eram. E ela sabia.

Pela primeira vez estava sozinha, consigo mesma, sua bipolaridade e não poderia reclamar. A desculpa para não refletir sempre fora que precisava ganhar dinheiro. Agora estava ali, com uma licença dada pelo trabalho e com todos ao seu redor: marido, filhos e seu próprio pai, dizendo que aquilo era o melhor para ela.

Porra!

Ela sabia que aquilo era o melhor, mas estava com medo. Ninguém conseguia entender isso? MEDO. M-E-D-O. De quê? Óbvio: dela mesma. Sabia que o problema era com ela e que somente ela poderia resolver alguma coisa. Sabia que ninguém poderia fazer nada naquele instante, sabia que estava sufocada e que precisava assumir. Saco!

O primeiro passo estava dado. Ia dormir, para depois tentar dar o segundo.

Qual fora o primeiro passo? Fora assumir que estava ali com o seu pior pesadelo e sua pior inimiga: ela mesma, pois a palavra mais repetida em sua mente fora: ela e não tinha como existir outro culpado.

Gabriele

24 Abr 14
Demais!

Guilherme Dred

24 Abr 14
Excelente Dai, retrata o que acontece com muita gente. Investir tempo procurando culpados a buscar uma solução para o problema que for Belo texto ! parabéns !!
DEIXE UM COMENTÁRIO