O Sol é Tão Bonito

Cheirou a segunda carreira seguida e levantou a cabeça para olhar ao redor. Estava no paraíso. Mulheres para todos os lados. Nuas, semi-nuas, vestidas e algumas até com roupa em excesso, mas todas com o mesmo objetivo. Os colegas de banda, cada um num canto do recinto, fazendo praticamente o mesmo que ele, riam alto e entrelaçavam-se com as mulheres que ali estavam para servi-los. Caiu na gargalhada. Ninguém nem percebeu, a não ser as mulheres que o entornavam, que pararam o que faziam, mas logo retornaram às “obrigações” rindo tanto quanto ele.

A cabeça deu uma pontada. O êxtase momentâneo passara. O efeito da droga já não era mais o mesmo. Não soube explicar o porquê, mas seu humor mudou completamente. Ficou nervoso, fechou a cara e a feição ficou moribunda. Puxou a garota (que se ocupava com seu órgão genital) pelo cabelo e fechou a braguilha da calça. Empurrou as outras duas que também se ocupavam dele e se levantou. Ninguém ali parecia se importar com o que ele pensava ou o que faria. Todos estavam perdidos em seus próprios mundos, em seus próprios momentos de êxtase e prazer. Eles eram praticamente Deuses.

Caminhou para a sacada e fechou a porta atrás de si. Não queria companhia, não queria mulher nenhuma. Queria apenas ficar sozinho por alguns minutos. Já era quase dia, o céu começava a dar uma clareada, mas o Sol ainda não havia despontado no horizonte. Encostou-se no parapeito da sacada e puxou um cigarro do bolso. Julgava a sensação da fumaça entrando em seus pulmões uma das melhores.

Imergiu em devaneios dos quais nunca havia se sentido apto a refletir antes. Olhou para a cidade abaixo e lembrou-se dela. A única coisa, que não era coisa, porque se fosse ele a teria comprado no cartão de crédito e a colocado numa prateleira, da qual sentia realmente falta. Não sentia falta da infância pobre e sem oportunidades no Brasil. Não sentia falta dos amigos que nunca tivera, nem da família que nunca lhe apoiara. Apenas dela. Que o acompanhou nos primeiros shows, que passou dificuldades ao seu lado e que ficou noites sem dormir em turnês pelo país de origem que passavam por estradas que impediam um sono profundo dentro do ônibus balançante. O grito lhe veio à memória:

- POR QUE?! ME EXPLICA. POR QUE?! VOCÊ É UM MERDA MESMO. - Baby, não é isso. Essa branquinha aqui me ajuda a desestressar, pô. Muito show, muita pauleira, não é fácil. - SEU MERDA. ENTÃO SE DESESTRESSA COM ESSA PORRA E ME ESQUECE. NÃO VOU CONTINUAR COM UM DROGADO DE MERDA, POR MAIS GRANA QUE ELE POSSA TER. - Você está exagerando. Ela pareceu se recompor e disse com calma: - Exagerando? Você vai lembrar do meu exagero quando nada mais disso surtir efeito. Quando a fama e o dinheiro não forem mais o suficiente. Quando essa merda aí acabar com você.

Voltou à realidade. E debochou de seu momento de fraqueza. Ela não estivera, nem nunca estaria certa. Como havia refletido antes, ele era praticamente Deus. Invencível. Aclamado e amado aonde quer que fosse. Ninguém além dele sabia qual era a sensação. A sensação de levar uma platéia inteira consigo. De ter uma multidão cantando aquelas músicas que ele havia escrito. Fãs tentando encostar nele, mandando beijos, umas até mostravam os seios. Ninguém sabia o que era estar no auge como ele estava. Intocável. A noite anterior tinha sido a melhor de sua vida. A primeira banda brasileira a tocar no Hyde Park. E o melhor: o lugar nunca estivera tão lotado em toda sua história. E olha que já recebera em sua grama grandes nomes, um deles britânicos, inclusive: The Rolling Stones.

Tocara nos maiores festivais do mundo. Ia às melhores e mais glamourosas festas possíveis. Saíra com as modelos mais bem pagas do universo fashion. Tinha seu próprio jatinho particular. E… Estava ali… Na terra da rainha, mostrando a que viera.

É, ela não sabia nada mesmo. Ele nunca estivera tão bem. E ninguém estava tão bem quanto ele. Mesmo na banda, ele era o mais querido, o mais popular e o mais desejado. Vocalistas, geralmente, tinham essa vantagem sob os outros integrantes.

“Maldição!!!” - Xingou em voz alta. Havia se distraído e se queimado com o cigarro. Por que tinha de fumar aquela merda? Apagou-o e olhou para o horizonte novamente. Mesmo com os prédios, podia ver que o Sol já despontava e iluminava de um laranja avermelhado aquela selva de pedras.

“O Sol é tão bonito.”, pensou. E era. Ele sim possuía o verdadeiro poder, autoconfiança e admiração alheia por brilhar todos os dias no mesmo lugar, há tanto tempo. E ainda mais naquela cidade, que costumava ser mais do que cinzenta. Deu um passo para trás. Pensar nunca era bom, o tornava depressivo, estranho. Era melhor voltar para dentro e cheirar mais uma carreira pra tentar acreditar que tudo àquilo que dizia a si mesmo era verdade. E não ter que assumir com amargura que ela… Ah! Na verdade ela sempre esteve certa.

Marcos Korody

09 Abr 14
Rock, on! :D
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