recebo para escrever cartas de amor.

estamos no pleno-emprego, não existe mais desculpa para não conseguir uma vaga. tem catho, tem michael page, tem comunidade no facebook e tem a moda do coaching quando se está muito perdido. outro dia mesmo lançaram um site de recolocamento profissional, coisa fina. pra quem não quer nada disso existe ser freelancer. era descolado ser freelancer até o dia em que os freelas descobriram que a instabilidade profissional não compensa o status. repensaram.

outro fato é que nunca foi necessário ter sensibilidade para namorar. ninguém escolhe par por aptidão com as palavras, mas a maioria das pessoas não se rende: insiste nas declarações de amor por facebook, uma hashtag na foto do instagram e um S2. coisa rasa e sem conteúdo. patético ao meu ver. tem tanta frase feita e uma tentativa de transmitir um nível de amor que, aparentemente, eu nunca cheguei. só que na verdade, a maioria das vezes não é bem assim. essas pessoas me deixam confusas, eu nunca entendi se elas estão fazendo declaração para a pessoa amada ou para as mil outras pessoas que deixaram de amar, que nunca superaram, que nunca amaram, que odeiam ou para os outros, que na maioria das vezes, estão pouco interessados na vida alheia.

o curioso disso tudo é que eu sempre pensei que amor é coisa pessoal. eu amo declarações, surpresas, recados e quanto mais bilhetes melhor, mas sem divulgação. até porque, talvez a minha certeza de que pouquíssimas pessoas estão nas redes sociais para ser audiência da minha vida, me faça crer que o quanto amo, pouco importa para a maioria do mundo. o tempo inteiro tem gente se apaixonando e terminando e o seu namorado, assim como a sua mãe, não são os mais interessantes, não para os outros. quer dizer, como todo bom namorado, tem suas qualidades e seus defeitos e vocês juntos podem ser lindos, mas a maioria das pessoas não se importam com isso.

enfim, de duas uma. ou essas declarações públicas são uma espécie de amor que eu não entendo e não admiro ou essas pessoas não sabem escrever cartas de amor. e tento não julgar, tem muita coisa que não sei fazer bem. a gente vive numa década abençoada: tem curso de internet, curso de vendas, curso de google adwords, de gastronomia. abençoada mais ou menos, porque eu nunca vi um curso para escrever cartas de amor. e se tivesse, me dói pensar que, provavelmente, a primeira turma não fecharia por falta de participantes.

eu amo escrever, principalmente sobre o amor e para o meu amor, quando tenho. tive o azar de namorar pessoas que não ligavam muito pra isso. uma vez recebi o seguinte feedback: ‘não dava pra escrever com uma letra maior? não tá dando para ler nada!’. enquanto eu tava ali, exposta, sangrando em um texto, declarando todo o meu amor, a pessoa só estava preocupada com o tamanho da minha letra. isso devia ser motivo de desquite, morte, traição, sei lá. mas como amor é amor, a minha indignação durou pouco e eu cheguei a pensar que era bom mesmo ter uma pessoa assim do meu lado, que deixava todo esse sentimentalismo exarcebado de lado. afinal, imagina só que melação seria se fossemos duas pessoas apaixonadas? o final não foi feliz, obviamente.

tudo isso pra dizer que, embora eu não esteja desempregada, adoro escrever cartas de amor. que seja o amor no começo, o amor pós-briga, o amor-paixão, o amor pré-término, quando o amor termina e até do não-amor; e largaria a minha profissão para me candidatar em algum site de quebra-galho, no mesmo aplicativo que as pessoas procuram um encanador, para escrever cartas de amor. eu nunca vi isso no catho, não existe coach que descubra esse dom. para as empresas pouco importa se você sabe ou não escrever cartas de amor, aliás, quanto menos você ama, melhor. e pro brasil, bom, o brasil tá no pleno-emprego e ainda não dá pra registrar escritores de cartas de amor. não conta ponto pra próxima eleição.

deve ser difícil sentir o amor do outro a ponto de escrever uma carta. eu nem acho que sei amar, se soubesse não teria passado tanto perrengue na vida, mas quero sair escrevendo cartas de amor e como, em vida, não se ama tanta gente, que seja para declarar amor pelos outros. nesse caso talvez precisasse de alguns dias juntos, um jantar, algumas palavras, mas a carta sairia. bonitinha e sentimental até dizer chega. com juras de amor. teria uma tabela: término? é mais caro, mas a gente divide. pra começo de namoro? sai facinho, é paixão.

talvez nessa profissão eu nunca pare de me apaixonar, ou me apaixonar pelos outros, ou pelas histórias dos outros que seja. mas a única coisa importante disso tudo é que trocaremos as hashtags pelo amor de verdade, aquele baixinho e verdadeiro. aquele que quando acaba, você não tem que deletar fotos do facebook, mas tem que aprender a viver sem, rasgar as cartas, queimar em ritual satânico. até nisso a carta vale mais a pena, existe uma tradição. e se der certo, bom, daí tem cartas pra mostrar para os filhos, para a mãe, para o seu par quando muito tempo passar e vocês continuarem juntos. todas muito ridículas, se há amor.

*foto retirada de http://motavatorss.tumblr.com/image/73637197940

Marcos Korody

01 Abr 14
giovana, é muita personalidade, entrega e vanguardismo para o mesmo conjunto de parágrafos. sem começo, sem fim, gostei, parabéns - não pára de escrever! : )

Marcos Korody

02 Abr 14
a propósito, você assistiu Her?
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