Para que acordar?

Começou a tomar consciência de que era alguém. Ali, daquele jeito. Um ser pensante. Estava deitado ou deitada? Vinha à mente a dúvida de ser homem ou mulher. Nova questão: dia ou noite? E a terceira, que logo atropelou a anterior: onde estava?

Sentiu um impulso incoercível em abrir os olhos, contudo o freou. Por quê?

Preferiu tentar se lembrar. E lembrava-se. De quê? De flashes da vida caótica, do trânsito, e nele uma discussão com direito a arma apontada na cara. De andar à noite no centro da cidade. Alguém se aproximando. Acelerou os passos. Algo metálico e gelado na nuca e a voz adolescente, masculina, daquelas em fase de mudança, na puberdade, com os hormônios à flor da pele, bem feia: - Passa tudo e passa agora. O gelo. O medo de perder a vida. Melhor entregar tudo mesmo, até o relógio.

Pela segunda vez hesitou em mexer as pálpebras para enxergar o mundo e o lugar onde se encontrava. Mais cenas. Metrô Sé, seis horas da tarde, sem espaço e um empurra daqui, empurra de lá. Sentiu uma protuberância em suas nádegas. Mudou de lugar. Foi difícil, mas conseguiu. E alguém grita. Uma mulher, alegando tentativa de estupro em meio à multidão. Linchado. Foi o que teve, por molestar uma trabalhadora, aquele indivíduo.

Terceira vez. Abrir ou não abrir? Ou melhor. Se abstrair. Pensou. Por que tantas dúvidas? Pensou. Mulher. Definitivamente era mulher. E não abriu. Qualquer coisa naquele momento era melhor do que acordar.

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